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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Ainda sobre a desunião da Igreja Católica

Já fiz um post aqui sobre a questão da unidade na Igreja Católica Romana, que o meu amigo Jonadabe respondeu no seu blog. Aqui darei prosseguimento a esse diálogo.

Jonadabe respondeu de duas formas ao que eu disse. Primeiro, ele alega que as discordâncias entre os membros da ICAR não implicam numa divisão real dentro desta, pois os que se desviam daquilo que a Igreja ensinou ao longo da história não são católicos verdadeiros:
Isso na verdade só demonstra que não dizemos que há mais de uma Igreja, ou que ambos podem estar certos ao mesmo tempo. Mas que um grupo está com a Igreja e outro não. Um é católico, outro não.
Que ambos não possam estar certos ao mesmo é algo lógico. Mas independente de qual desses grupos seja "verdadeiramente católico", ambos ainda são constituídos de membros comunicantes da Igreja Romana. Mesmo se o que algum deles defende não é o que historicamente foi defendido pela Igreja (ainda que eu ache esta noção problemática) eles estão dentro dela.

Ele tenta exemplificar seu argumento num caso histórico, o da controvérsia sobre a divindade de Jesus, levantada por Ário no século IV:
É católico Atanásio que defende o que sempre foi ensinado, ou Ário? É óbvio que a resposta é que Atanásio é católico, e Ário não. Apesar de estar em templos católicos, a fé dele não é. Essa não é uma divisão DENTRO da Igreja, mas alguém que ensina algo diferente do que ela ensina, e portanto está fora dela.
Sim, o que está de acordo com a verdadeira doutrina cristã é Atanásio. Mas Ário e seus partidários, mesmo assim continuam dentro da Igreja, até o momento em que o Concílio de Nicéia decide pela posição heterodoxa dos mesmos. Até o momento em que alguém é realmente desligado de uma organização, ele continua sendo parte dela, mesmo discordando de seus pontos principais. Este caso é um exemplo disto, ao invés de um contra-exemplo. É assim no catolicismo, no protestantismo e na imensa maioria dos (quiçá todos) grupos religiosos, ideológicos, culturais etc.

O segundo ponto de Jonadabe é que as discordâncias entre os católico-romanos são
pequenas, ao passo que entre os protestantes, são muito maiores, na essência da fé cristã:
Essas diferenças em relação aos protestantismos são imensas, onde um acredita na transubstanciação, enquanto outro não acredita, fazendo com que a diferença não seja só na liturgia (quando existe liturgia), mas nos dogmas, no que pode ou não ser considerado revelação de Jesus. Realmente não sei como ele consegue conciliar isso com o ensino de Jesus e dos apóstolos em relação à unidade.
Primeiro, não há, até onde eu saiba, algum grupo protestante que acredite na transubstanciação. Os luteranos acreditam na consubstanciação, que é a presença espiritual, não física, de Cristo na Eucaristia (mais conhecida no meio protestante como Santa Ceia), todos os outros grupos crendo que o pão e o vinho apenas simbolizam o corpo e o sangue do Senhor.

Segundo, a esmagadora maioria das igrejas protestantes possuem um grupo de crenças em comum: creem na Trindade; nas duas naturezas de Cristo unidas em uma única pessoa; no seu nascimento virginal; em sua morte vicária e expiatória, na sua ressurreição, ascensão e segunda vinda; na salvação através da fé em Jesus; na Bíblia como única regra de fé inerrante para o cristão... Enfim, não me alongarei demais nisso, mas acho que me fiz entender. As discordâncias entre os protestantes se referem a pontos mais laterais e que, retomando o assunto inicial, também existem entre os católico-romanos, como a atualidade dos dons espirituais.

É verdade que há grupos que surgiram do protestantismo e acabam por desembocar em desvios doutrinários enormes. Mas estes acabam sendo rejeitados pela maioria dos protestantes, e muitos deles inclusive rejeitam serem chamados assim (como as Testemunhas de Jeová, já mencionadas nesta troca de artigos).

Quanto ao que disse sobre "ensino de Jesus e dos apóstolos em relação à unidade", gostaria que explicasse melhor sua posição acerca disso.

sábado, 5 de novembro de 2011

Da suposta unidade de Roma

Esse post tem suas origens no blog de meu amigo Jonadabe, o Porque creio. Ele fez o seguinte post:

http://porquecreio.blogspot.com/2011/10/so-para-recapitular.html

o qual tece várias críticas para os protestantes (Jonadabe é um ex-protestante, que se converteu ao catolicismo romano). O principal ponto arguido é que os protestantismo está corroído por divisões, que acontecem a cada instante, enquanto a Igreja Católica Romana continuava "Una".

Diante disso, exerci o direito de defender minha fé, fazendo um comentário no post, no qual eu arguia que a unidade romana era apenas aparente: na verdade, a ICAR continha grupos que discordavam entre si e chegavam a atacar um ao outro. Isso provocou comentários de diversos católicos, que por terem maior extensão responderei aqui mesmo. Estou assumindo que o leitor já conferiu os comentários no post do Jonadabe.

Primeiro, de alguém que usa o nickname "Testemunhos Católicos":
Ora, meu Deus do céu! E o que os ritos e grupos da Igreja afetam a sua unidade? Protestante realmente não sabe o que é unidade. A unidade da Igreja está na sua doutrina e nos seus dogmas, na sua moral e na sua fé. Modos diferente de se viver sempre vão existir, e é justamente nisso que se encontra a unidade da Igreja.

Os ritos? O que isso influencia? Os ritos são modos da missa ser celebrada, de acordo com a cultura e os traços locais. Desde quando tudo tem que seguir o rito ocidental latino? Falando de grosso modo, a maneira que nossas pernas caminham não afetam a nossa caminhada em linha reta.
Concordo perfeitamente com você de que o formato dos ritos não afeta em nada seu significado, nem é uma questão crucial. É exatamente um dos motes de protestantismo. Quando eu falei dos ritos, não estava dizendo que eles comprometem a essência, mas que existem pessoas dentro da ICAR que pensam assim e conclamam um "retorno às origens". Você precisa ir dizer isso para teus correligionários tradicionalistas, que pensam de forma diferente. Para comprovar o que eu digo, confira este singelo parágrafo:
Recordando-me desta doutrina certíssima e irrevogável da Madre Igreja [da Eucaristia] e observando as transformações, convulsões e experiências peculiares do que atualmente ousam qualificar de renovação litúrgica, sou como que forçado a concluir que esta balbúrdia se rege por uma doutrina oposta à doutrina ortodoxa. (http://permanencia.org.br/drupal/node/2118, as enfases são todas do autor)
E este artigo segue dizendo que as mudanças litúrgicas comprometem a transubstanciação e a doutrina do Sacrifício de Cristo. Não que eu concorde com isso, repito (sendo protestante, não creio na transubstanciação), estou apenas demonstrando a que ponto os católico-romanos divergem entre si. E o que vem a seguir é quase uma admissão disto, pela boca de outro tradicionalista:
Então quem está dentro da Igreja? Aqueles que aceitam e procuram por em pratica as falsas doutrinas do Vaticano II ou aqueles que as recusam abertamente para permanecer fieis ao que o Magistério, assistido pelo Espírito Santo, ensinou durante dezenove séculos? (http://www.fsspx-brasil.com.br/page%2005-2ja.htm)
Volto a dizer, não concordo necessariamente com as teses dos tradicionalistas nem estou arguindo por elas. Estou usando-as apenas como exemplo de divisões dentro da ICAR.

Em seguida, o "Testemunhos Católicos" diz:
Os grupos? Isso é piada ou algo parecido? Querer comparar Arautos do Evangelho com Testemunha de Jeová só pode ter algum tipo de problema crônico na cabeça.
Oh, certamente minha comparação foi um pouco desproporcionada. As Testemunhas de Jeová, posto que socinianos e pondo todas as decisões doutrinárias como derivadas de seu "Corpo Governante", nunca desceu ao ponto dos Arautos do Evangelho, que chegam a erigir uma idolatria ao "Sr. Dr. Plínio". Vide:

http://www.montfort.org.br/index.php/blog/nova-confirmacao-do-culto-delirante-prestado-a-plinio-correa-de-oliveira/#more-6723

(Oh, a sempre viva Fundação Montfort, o site católico que mais provê recursos para os protestantes no país...)

Quanto à sua insinuação de que eu tenho "algum tipo de problema crônico na cabeça", sugiro que leia Mateus 5:22.

E logo após:
Protestante é tão complexado com suas 500.000 seitas que parecem que ficam com inveja quando ouvem a palavra "unidade". Ai qualquer cor diferente que vê em um mesmo lugar já diz que quebrou a unidade.
Como eu já mostrei, não sou eu que estou dizendo, são os teus próprios irmãos. Vá reclamar com eles. Aliás, de onde saiu esse seu número aí?

Quero também comentar a declaração de um certo Helder:
É por isso que o restante da Igreja se cala quando Pedro fala no 1º concílio(At. 15) e dissolve a discussão entre S. Paulo e S. Tiago.
Você deve ter uma versão especial do livro dos Atos dos Apóstolos, pois o texto disponível para todos tem um conteúdo completamente diferente. A controvérsia não é entre S. Paulo e S. Tiago, mas entre S. Paulo e judaizantes cujos nomes não são mencionados (At 15:1-2, 5). S. Pedro, como discípulo do Senhor, certamente tem sua parte no Concílio de Jerusalém que resolveu esta questão, mas a última palavra não é sua, e sim de S. Tiago (15:13-21). E a decisão é creditada aos "apóstolos e anciãos, com toda a igreja" (15:22). Não somente isso, mas quando Pedro acaba, em Antioquia, a concordar momentaneamente com os tais judaizantes, é duramente repreendido por Paulo (Galátas 2).

Não quero, porém, focar a discussão no "Primado de Pedro" e sua relação com a autoridade do Bispo de Roma (ainda que seja oportuno fazer isso em outro momento). Meu ponto principal é que os católico-romanos estão suscetíveis de divisões, tanto quanto os protestantes.